Hídrica domina transacções no início de Janeiro

Lisboa, 26 de janeiro de 2011

Em 2010, a EDP bateu o recorde de produção hídrica. As centrais hidroeléctricas ultrapassaram os 15.000 GWh, batendo assim o resultado de 2003, o melhor ano da década agora concluída.

A hídrica da EDP representou cerca de 30% do consumo total do País em 2010. O ano em curso começou chuvoso. É ainda cedo para antecipar um novo recorde hídrico para 2011. No entanto, nas primeiras semanas de Janeiro o padrão repetiu-se. O mercado foi em grande parte abastecido com energia produzida nas barragens.

Mercado e sistema eléctrico determinam gestão da produção
"Tendo as centrais a descarregar. Temos de produzir", explica Lobo Ferreira, um dos responsáveis da Unidade de Negócio de Gestão da Energia (UNGE), a equipa de mais de 60 colaboradores encarregue de vender a electricidade produzida nas centrais térmicas e hídricas da EDP em Portugal. Vendem energia e compram os combustíveis necessários à produção (carvão, gás, fuel-oil) bem como as licenças de CO2. Fazem-no em mercados a prazo, diários e intra-diários.

Com base em modelos de optimização decidem que centrais e em que momentos vão produzir a electricidade procurada no mercado pelas Comercializadoras. A negociação acontece com pouco mais de 24 h de antecedência. Tomemos como referência o dia 12 de Janeiro de 2011. Pelas 9 h, hora de fecho do OMEL (mercado diário de electricidade sedeado em Madrid), a equipa da UNGE sabe o que vai ser vendido e comprado a 13 de Janeiro. Ainda no dia 12, a REN, gestora do sistema, revê planos de produção e introduz alterações. Em nome da segurança de abastecimento retira ou aumenta as produções contratadas a cada central. Faz parte das suas competências. Os produtores - EDP, Endesa (Pego), International Power (Tapada do Outeiro e Pego a carvão), Iberdrola (Aguiera) - são obrigados a prestar estes serviços. São os chamados serviços de sistema.

No dia 13, a REN dá instruções para que parte das vendas planeadas para as hídricas sejam substituídas por produção térmica em Sines e na Central do Ribatejo. O objectivo: aumentar produção a Sul, porque a produção hídrica está concentrada a Norte e as linhas de transporte não aguentam todo o trânsito necessário. Até porque o temporal em Tomar danificou linhas.

Apesar deste ajuste, no dia 13 a EDP prevê satisfazer 65 % das ordens de compra em mercado com hídrica. Deverá continuar assim nos próximos dias. A chuva das últimas semanas aumentou o caudal afluente. Se não voltasse a chover, demoraria cerca de um mês para regularizar. "Há ainda que consumir água armazenada nas albufeiras, ganhando capacidade de encaixe para novos períodos de chuva", realça Lobo Ferreira.

Produzir nos intervalos do vento
Toda esta água nos rios quase que dá para abastecer o País. As temperaturas estão amenas e por isso o consumo nacional rondará os 165 GWh, estima Lobo Ferreira. Para dia 13, prevê-se pouco vento. Por isso, o contributo das eólicas não irá além dos 10 GWh.

Sendo produção em Regime Especial, tal como a cogeração, a eólica é comprada na íntegra pela EDP Distribuição. A procura que não é satisfeita por esta via vai ao mercado, onde é oferecida toda a outra energia produzida. Térmicas e hídricas são supletivas em relação às eólicas. Pode-se dizer que "produzem nos intervalos do vento".

O vento é volátil e pouco previsível. Por isso, a flexibilidade é cada vez mais um activo essencial na gestão das centrais. As hídricas ganham às térmicas. Uma central a carvão, por exemplo, demora 10 horas a arrancar. As hídricas são quase como interruptores. Ligam e desligam em minutos. São a melhor forma de produção para responder aos picos de consumo. Particularmente, o período entre as 18h e 20h, no inverno, quando ainda há empresas a trabalhar e já há muita gente a chegar a casa fazendo disparar os consumos domésticos. Servem também para suprir rapidamente uma quebra da oferta, provocada, por exemplo, por uma súbita paragem do vento.

Não sendo solução única - há anos secos -, as hídricas têm potencial ainda por desenvolver. Os reforços de potência em curso vão aumentar a capacidade de resposta nos picos, porque aumentam os caudais turbinados. Será possível concentrar mais a produção. Por outro lado, as novas barragens com bombagem permitem aproveitar períodos de elevada produção eólica para encher as albufeiras, guardando a água até a procura voltar a subir.

Estes dois modelos de reforço da capacidade hídrica da EDP respondem às necessidades estruturais do País e às opções de política energética: produzir mais energia renovável e endógena com forte ênfase na eólica complementada com hídrica.

Suprir as necessidades do dia-a-dia fica a cargo dos mercados e os seus agentes: produtores, comercializadores e a REN. Quando cada um de nós liga o interruptor, o aquecimento ou o ar condicionado há mão da UNGE por detrás desse gesto. São eles que decidem, com base no preço e nas orientações do gestor do sistema, de onde vem a energia que consumimos. Dia 13 de Janeiro de 2011, o País foi iluminado a água.